Mensagem do diretor

“A minha pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa).

De acordo com os dados divulgados pelas maiores bases de dados de indexação de periódicos técnicos e científicos no mundo, os artigos publicados em revistas nacionais de países de língua portuguesa, especialmente Portugal e o Brasil, são citados em média menos cinco vezes do que se fossem publicados numa revista internacional. A média melhora um pouco, quando, apesar de tratar-se de uma revista nacional, o artigo é publicado em inglês, mas ainda assim penalizadora para os autores que publicam nas revistas nacionais em cerca de quatro vezes menos citados. Existe, então, como que uma tendência natural para os autores de língua portuguesa publicarem na língua inglesa e, de preferência, em revistas internacionais.

Neste sentido, perde a língua portuguesa, perdem também os cerca de 265.000.000 de potenciais leitores da língua portuguesa em todo o mundo. Com efeito, segundo o Observatório da Língua Portuguesa, existem aproximadamente 265.000.000 de falantes de português em todo o mundo, o que coloca o português como a quarta língua mais falada do mundo, atrás do mandarim, do espanhol e do inglês.

Falado nos cinco continentes, o português é a língua oficial de oito países: Angola (21,5 milhões de habitantes), Brasil (202,7 milhões), Cabo Verde (498 mil), Guiné-Bissau (1,7 milhões), Moçambique (25,8 milhões), Portugal (10,6 milhões), São Tomé e Príncipe (193 mil) e Timor-Leste (1,1 milhões). Contudo, só nos casos de Portugal e do Brasil é contabilizada toda a população como falante de português. Em Timor-Leste, por exemplo, apenas 20% dos habitantes falam português, enquanto na Guiné-Bissau são 57%, em Moçambique 60%, em Angola 70%, em Cabo Verde 87% e em São Tomé e Príncipe 91%, revelam os dados do observatório.

Por outro lado, é preciso contabilizar também as diásporas, que, todas juntas, ascendem a quase 10 milhões de falantes de português, incluindo os 4,8 milhões de emigrantes portugueses e três milhões de brasileiros, segundo dados de 2010. A língua portuguesa é ainda falada em locais por onde os portugueses passaram ao longo da História como Macau, Goa (Índia) e Malaca (Malásia).

Ainda, segundo o Observatório da Língua Portuguesa, o português é a língua mais falada no hemisfério sul, com 255 milhões de falantes em Angola, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Entre as línguas europeias, o português surge como a terceira mais falada e um estudo da Bloomberg considera-o a sexta língua do mundo mais utilizada nos negócios.

Em síntese, o português é uma língua com dimensão significativa para a pesquisa e a ciência. Sem descurar a internacionalização da ciência dos autores de língua portuguesa, sem dúvida sob domínio da língua inglesa, não se deve abandonar a pesquisa e publicação em português. Na verdade, face ao número significativo de falantes, o português não deve comparar-se a outras línguas menores, como por exemplo o holandês, cujas publicações científicas têm um diminuto impacte científico se não forem vertidas em inglês.

Neste quadro de enfraquecimento da língua portuguesa, além das perdas em termos científicos, corremos também o risco de perder oportunidades económicas significativas. Efetivamente, segundo dados da CPLP, a atividade económica entre os países desta comunidade dos países de língua portuguesa é baixa para o potencial existente. Atualmente, os negócios realizados entre os membros da CPLP são, em média, de US$ 13 mil milhões de dólares por ano, o que representa pouco mais de 2,3% das negociações totais que estes estados realizam no mundo, valor que gira em torno de US$ 550 mil milhões de dólares por ano. Enquanto a China, por exemplo, possui trocas comerciais com a Comunidade da CPLP que chegam a representar um volume de US$ 77 mil milhões de dólares.

Refletindo um pouco mais sobre este mercado da CPLP, concluímos que 50% dos recursos petrolíferos descobertos na última década estão nestes países; em meados deste século, o gás e o petróleo de Angola, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé representaram 30% da produção mundial de hidrocarbonetos, o equivalente à produção atual do Médio Oriente. Acresce a estes valores a produção petrolífera da Guiné Equatorial, o mais recente membro da CPLP, a terceira maior a sul do Sara após a Nigéria e Angola, o país mais rico da África subsariana com 35 mil dólares de rendimento per-capita – semelhante ao do Reino Unido -, apesar de 78% dos seus habitantes viverem abaixo do limite da pobreza.

É neste quadro que se justifica a necessidade de pesquisar e publicar em português, especialmente no domínio da economia e das empresas.

Assim, sob o lema de Fernando Pessoa “A minha pátria é a língua portuguesa”, nasceu o periódico E3 – Revista de Economia, Empresas e Empreendedores na CPLP. A missão é contribuir para o fomento do empreendedorismo e dos negócios nas economias dos países da CPLP, através de ciência em português.

Eduardo Leite, Ph.D.